"Once upon a time there was a girl I knew, who lived across the street. Brown hair, brown eyes. When she smiled, I smiled. When she cried, I cried. Every single thing that ever happened to me that mattered, in some way had to do with her. That day Winnie and I promised each other that no matter what, that we'd always be together. It was a promise full of passion and truth and wisdom. It was the kind of promiss that can only come from the hearts of the very young."(Kevin Arnold)


























 
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Bigornas
 
segunda-feira, abril 26, 2004  
Dr. Lecter podia superar o ambiente onde se encontrava,podia fazer tudo aquilo desaparecer. O barulho do jogo do computador, os roncos e peidos não eram coisa alguma comparados aos gritos infernais que ele conhecera nas alas de criminosos violentos. A poltrona não era mais apertada do que as amarras. Como fizera tantas vezes em sua cela, recostou a cabeça, fechou os olhos e se retirou para o alívio no silêncio de seu palácio da memória, um lugar que, na maior parte, é bastante bonito.
Durante esse curto tempo, o cilindro de metal que uiva para o leste contra o vento contém um palácio de mil cômodos.
Como uma vez visitamos o Dr. Lecter no Palazzo Capponi, agora iremos com ele ao palácio de sua mente...
O saguão é a capela normanda de Palermo, severa, linda e eterna, com uma única lembrança da mortalidade no crânio gravado no piso. A não ser que esteja com grande pressa para pegar informações no palácio, o Dr. Lecter costuma parar aqui como faz agora, para admirar a capela. Mais atrás, distante e complexa, luminosa e escura, fica a vasta estrutura criada pelo dr. Lecter.
O palácio da memória era um sistema mnemônico bem conhecido dos antigos eruditos, e muita informação foi preservada nele através da Idade das Trevas, enquanto vândalos queimavam os livros. Como os eruditos anteriores, o Dr. Lecter armazenava em seus milhares de cômodos uma quantidade enorme de informações associada a objetos. Mas, diferentemente dos antigos, o Dr. Lecter tem um segundo objetivo para esse palácio; algumas vezes ele vive ali. Passou anos em meio às coleções exóticas, enquanto seu corpo estava amarrado numa ala para criminosos violentos, com gritos fazendo as barras de aço zumbirem como a harpa do inferno.
O palácio de Hannibal Lecter é vasto, até mesmo para os padrões medievais. Traduzido para o mundo tangível, ele poderia rivalizar com o palácio Topkapi em Istambul, em tamanho e complexidade.
Nós o alcançamos enquanto os chinelos rápidos de sua mente passam do saguão para o grande salão das estações. O palácio é construído segundo as regras descobertas por Simonides de Ceos, e elaborado por Cícero quinhentos anos depois; é arejado, com teto alto, mobiliado com abjetos e quadro vívidos, marcantes, algumas vezes chocantes e absurdos, e freqüentemente belos.As obras expostas são bem espaçadas e bem iluminadas como num grande museu. Mas as paredes não têm as cores neutras dos museus. Como Giotto, o Dr. Lecter pintou afrescos nas paredes de sua mente.
Ele decidiu pegar o endereço da casa de Clarice Starling enquanto está no palácio, mas não tem pressa, por isso pára ao pé de uma grande escadaria onde estão os bronzes de Riace. Esses grandes guerreiros de bronze, atribuídos a Fídias, resgatados do fundo do marem nosso tempo, são a peça central de um espaço coberto de afrescos que poderia desenrolar toda a obra de Homero e Sófocles.
Se quisesse, o Dr. Lecter podia mandar que os rostos de bronze declamassem versos de Meleagro, mas hoje ele só que olha-los.
Mil cômodos, quilômetros de corredores, centenas de fatos ligados a cada objeto que decora cada cômodo, um descanso agradável esperando o Dr. Lecter sempre que opta por se retirar para lá.
Mas isto compartilharemos com o doutor: nas abóbadas de nossos corações e nossos cérebros, o perigo espera Nem todas as câmaras são adoráveis, claras e altas. Há buracos no piso da mente, como no piso de uma masmorra medieval – calabouços fétidos, celas em forma de garrafas, na rocha sólida, com o alçapão no topo, onde as pessoas esqueciam. Delas nada escapa em voz baixa para nos tranqüilizar. Um tremor, alguma traição de nossos guardas, e fagulhas de lembranças fazem disparar os gases nocivos – coisas presas há anos voam livres, prontas para explodir em dor e nos levar a um comportamento perigoso...
Temerosos e maravilhados, seguimos enquanto ele anda com passo leve e rápido ao longo do corredor que criou, através de um perfume de gardênias, a presença de grandes esculturas nos pressionando, e a luz das pinturas.
Seu caminho vira à direita, passando por um busto de Plínio e subindo a escada até o saguão dos endereços, um cômodo cheio de estátuas e pinturas numa ordem fixa, bem espaçadas e bem iluminadas, como Cícero recomenda.
Ah... a terceira alcova a partir da porta, à direita, é dominada por uma pintura de São Francisco dando uma mariposa de comer a um estorninho manho real em mármore pintado: um desfile no Cemitério Nacional de Arlington, liderado por Jesus, com 33 anos, dirigindo uma caminhonete Ford modelo T 1927, conhecido com “tin lizzie”, com J. Edgar Hoover de pé na carroceria usando um tutu de bailarina e acenando para uma multidão invisível. Ao lado dele, Clarice Starling marcha carregando um rifle Enfield 308 sobre o ombro.
O Dr. Lecter parece satisfeito em vê-la. Há muito tempo obteve o endereço da casa de Starling com a Associação de Alunos da Universidade de Virgínia. Ele guarda o endereço naquele quadro vivo, e agora, para seu próprio prazer, pega os números e o nome da rua onde Starling mora.
Tindal, 3327
Arlington, VA, 22308
O Dr. Lecter pode se movimentar com velocidade espantosa pelos vastos salões de seu palácio da memória. Com seus reflexos e força, a capacidade de apreensão e velocidade da mente, o Dr. Lecter está bem armado contra o mundo físico. Mas há lugares ali dentro aonde ele não pode ir em segurança, onde as regras de lógica de Cícero, de espaço e de luz ordenados, não se aplicam...
Decidiu visitar sua coleção de tecidos antigos. Para uma carta que está escrevendo para Mason Verger, ele quer rever um texto de Ovídio falando sobre óleos faciais perfumados, que está ligado à tecelagem,
Prossegue caminhando sobre uma interessante passadeira Kilim de trama lisa, em direção ao salão de teares e têxteis.
No mundo do 747 a cabeça de Lecter está encostada na poltrona, os olhos fechados. A cabeça balança suavemente enquanto a turbulência sacode o avião.

8:51 PM

 
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